Transformações sociais relevantes estão impactando o cotidiano e as decisões das pessoas. Na educação, esse processo se torna especialmente evidente. Se antes cursar uma graduação ocupava um lugar praticamente absoluto na trajetória profissional, atualmente divide protagonismo com diferentes possibilidades. Segundo a pesquisa “Decisões e Influências: a jornada do jovem para o ensino superior”, da Globo Gente, 28% dos jovens consideram abrir o próprio negócio antes da graduação, enquanto outros 27% pensam em ingressar diretamente no mercado de trabalho e o mesmo percentual avalia fazer um curso técnico. Cursos livres (24%), intercâmbio (15%) e a carreira como influenciador digital (12%) também aparecem entre as alternativas. Apenas 10% afirmam que a graduação sempre foi a primeira opção.
Os dados indicam que a educação continua ocupando um papel central na construção das carreiras. O caminho até esse objetivo, porém, tornou-se mais diverso. A lógica de uma trajetória linear cede lugar a percursos marcados por atualização constante, diferentes experiências de aprendizagem e múltiplas possibilidades de atuação. Parte desse movimento é impulsionada pela consolidação da creator economy. O modelo amplia as possibilidades de empreender, monetizar conhecimento, construir audiência e desenvolver carreiras mais autônomas. Ao mesmo tempo, discussões sobre qualidade de vida, flexibilidade e equilíbrio entre rotina, lazer e trabalho influenciam a forma como as novas gerações definem sucesso e realização profissional.
Ainda assim, algumas aspirações permanecem. O maior sonho dos jovens continua sendo sentir-se realizado profissionalmente (44%), seguido por aprender um novo idioma (38%), conquistar um diploma superior (33%) e alcançar determinado patamar na carreira (29%), segundo o estudo da Globo Gente. As pessoas passaram a buscar formações alinhadas à forma como vivem e constroem suas trajetórias. O desafio das instituições é demonstrar como a aprendizagem pode acelerar carreiras, ampliar oportunidades e preparar profissionais para um mercado em constante transformação. Afinal, se o diploma já não basta para diferenciar um profissional, também deixa de ser o único atributo capaz de orientar a escolha por uma instituição de ensino.
Aprendizagem contínua
A velocidade das transformações econômicas, tecnológicas e sociais reduz o prazo de validade do conhecimento. O relatório “The Future of Jobs 2025”, do Fórum Econômico Mundial, estima que 39% das habilidades atuais estarão defasadas até 2030, evidenciando um contexto em que a aprendizagem contínua deixa de representar uma vantagem competitiva e se aproxima de uma necessidade profissional.
O comportamento das novas gerações confirma essa tendência. Segundo a pesquisa da Globo Gente, nove em cada dez jovens pretendem realizar outra formação além da graduação no próximo ano. A busca por cursos livres, idiomas e especializações revela que o desenvolvimento profissional extrapola o ensino superior e acompanha diferentes etapas da vida.
Cresce, assim, a expectativa por experiências de aprendizagem compatíveis com esse ritmo. O valor da educação está cada vez mais associado ao repertório construído ao longo da trajetória profissional, à atualização constante e à capacidade de responder às transformações do mercado.
Flexibilidade é decisiva
Se aprender acompanha toda a trajetória profissional, também muda a forma de acessar a educação. Flexibilidade tornou-se um fator decisivo na escolha pelo ensino superior. Pela primeira vez, a Educação a Distância (EaD) superou o ensino presencial e passou a concentrar 50,7% das matrículas no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior 2023, do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). No Rio Grande do Sul, o movimento é ainda mais expressivo: 58,3% dos estudantes já estão matriculados na modalidade, conforme o Panorama da Educação Superior Privada no Rio Grande do Sul, do Semesp.
A expansão da EaD acompanha mudanças na forma como os brasileiros organizam seu tempo. Segundo o “Mapa do Ensino Superior no Brasil 2025”, também do Semesp, a modalidade avançou quase 300% na última década, impulsionada pela possibilidade de conciliar estudo, trabalho e responsabilidades familiares. A decisão pela graduação incorpora fatores como disponibilidade de tempo, mobilidade e autonomia para definir quando, onde e como aprender.
Comunicar valor
Não à toa, a forma de escolher uma instituição acompanha as mudanças no consumo de informação. Redes sociais, criadores de conteúdo, inteligência artificial e diferentes plataformas ampliam as referências consideradas pelos estudantes e distribuem a jornada de decisão entre diversos pontos de contato. Nesse ambiente, a disputa começa muito antes das inscrições. Demonstrar como a formação se conecta aos projetos de vida, às perspectivas profissionais e às demandas do mercado fortalece a percepção de valor durante todo o processo de escolha.
Compreender esse comportamento ajuda instituições de ensino a desenvolver estratégias de comunicação alinhadas às expectativas do público e à evolução do segmento. A forma como uma instituição comunica seu propósito e seus diferenciais influencia a decisão muito antes da matrícula, fortalece a reputação da marca e consolida relações de confiança com futuros estudantes.
Por: Daiani Aguiar
Jornalista e Analista de Insights de Mercado