Monday, 5 de October de 2026

O que a IA não substitui: repertório e reinvenção como vantagem humana

Mais do que dominar novas ferramentas, o desafio passa a ser desenvolver a capacidade de enxergar possibilidades que a tecnologia ainda não mostra.
O que a IA não substitui: repertório e reinvenção como vantagem humana

O avanço da inteligência artificial tem alterado, em poucos anos, capacidades que antes pareciam exclusivamente humanas, como a análise de dados e a criação de conteúdo visual. Diante desse cenário, a palestra de Luis Justo, CEO da Rock World -empresa por trás de gigantes como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza Brasil; realizada em 24 de setembro na Semana Caldeira, discutiu quais habilidades continuarão sendo diferenciais para profissionais e empreendedores em um mercado de trabalho diariamente mais automatizado.

O ponto de partida da palestra é histórico, Justo compara a atual transformação tecnológica à Revolução Industrial, que levou cerca de 250 anos para substituir o trabalho manual por máquinas. Segundo ele, uma evolução tecnológica se torna revolução quando a produtividade de uma nova ferramenta cresce e seu custo cai a ponto de tornar inviável manter o método antigo. O que antes levou séculos para transformar o trabalho braçal, segundo o palestrante, está se repetindo hoje em meses ou semanas com a capacidade analítica e criativa: ele cita como exemplo a evolução das ferramentas de geração de imagem por inteligência artificial entre 2022 e os anos seguintes, que passaram de resultados rudimentares a imagens com nível de detalhe e contexto cada vez mais sofisticado em questão de poucos anos.

Diante dessa aceleração, Justo argumenta que produtividade, análise e até criação deixam de ser diferenciais competitivos, porque também estão sendo absorvidas pela tecnologia. O que resta, segundo ele, é a capacidade de sonhar, aliada à habilidade de usar as ferramentas disponíveis para transformar essa visão em realidade. Ele resume essa ideia de forma direta: quem sabe sonhar e sabe usar inteligência artificial é quem vai se destacar, porque a inteligência artificial sozinha é apenas uma entrega disponível para todos, a todo momento.

Para detalhar o que chama de habilidades internas, o palestrante apresenta duas delas com mais profundidade. A primeira é a capacidade de aprender e ampliar repertório, que ele diferencia de simplesmente acumular conhecimento. Para explicar o conceito, recorre à ideia de que existe uma grande área de coisas que sabemos, uma menor de coisas que “sabemos que não sabemos”, e uma área ainda maior de coisas que “nem sabemos que não sabemos”. Segundo Justo, o algoritmo tende a nos entregar cada vez mais do que já conhecemos ou do que já reconhecemos como lacuna, mas raramente nos expõe àquilo que está completamente fora do nosso radar. Cultivar essa ampliação de repertório de forma deliberada, argumenta ele, é o que permite depois fazer curadoria e tomar decisões melhores na carreira e nos negócios. Ele reforça essa ideia citando que a primeira versão de qualquer trabalho nunca é a definitiva, e usa como exemplo o método de roteiro da Pixar, em que toda a equipe contribui com aquilo que o autor original não sabia que não sabia sobre sua própria história.

A segunda habilidade destacada é a antifragilidade, conceito que Justo associa ao economista Nassim Taleb e que diferencia claramente de resiliência. Enquanto a resiliência seria a capacidade de resistir a uma crise sem quebrar, a antifragilidade é a capacidade de se transformar e sair mais forte a partir dela. Para ilustrar, ele recorre ao ideograma japonês de crise, formado pela junção dos caracteres de risco e oportunidade, e defende que toda crise carrega necessariamente as duas dimensões ao mesmo tempo.

O que a palestra de Luis Justo propõe, em síntese, é uma inversão de prioridades para quem quer se manter relevante em um mercado moldado pela inteligência artificial. Se tarefas técnicas, analíticas e até criativas estão sendo progressivamente automatizadas, o diferencial humano passa a residir na capacidade de ampliar repertório de forma consciente e na capacidade de transformar crises em reinvenção, em vez de apenas resistir a elas. Nessa leitura, dominar ferramentas de inteligência artificial deixa de ser o objetivo final e passa a ser apenas o meio pelo qual essas habilidades internas se traduzem em resultado concreto para profissionais, empresas e negócios.

Por Isabela Gerlach
Estagiária de Comunicação e Growth B2B no Grupo RBS

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