Friday, 26 de June de 2026

Ninguém mais assiste TV? Os dados dizem outra coisa

Alcance, credibilidade e relevância cultural fazem da televisão uma plataforma que continua estratégica para marcas, mesmo na era do streaming e das redes sociais.
Ninguém mais assiste TV? Os dados dizem outra coisa

"Ninguém mais assiste TV no Brasil." "Ninguém mais tem nem televisor em casa." Quem circula pelos debates sobre cultura, comunicação ou tecnologia certamente já ouviu essas frases apresentadas como verdades incontestáveis. Elas têm apelo intuitivo, mas não encontram sustentação quando confrontadas com os dados. O Rio Grande do Sul é um excelente laboratório para observar essa contradição. Trata-se de um estado onde a digitalização avançou rapidamente, o acesso a plataformas de streaming é amplo e o consumo de conteúdo online faz parte da rotina. Ainda assim, a televisão permanece ocupando um lugar central na vida cotidiana. Não apenas como meio de entretenimento e acesso à informação, mas como um dos principais espaços de construção de repertório cultural compartilhado.

Os números ajudam a dimensionar esse fenômeno. Segundo dados*, o gaúcho consome, em média, 5 horas e 5 minutos de TV linear por dia. Isso representa mais de um quinto de todo o dia. Em um ambiente midiático marcado pela fragmentação das audiências, poucos produtos culturais conseguem manter esse nível de presença na rotina das pessoas. A ideia de que a televisão teria se tornado um meio restrito às gerações mais velhas também não resiste à análise dos dados. Entre janeiro e novembro de 2025**, a TV linear alcançou 95% dos Baby Boomers, 95% da Geração X, 86% dos Millennials e 85% da Geração Z na Grande Porto Alegre. A diferença entre gerações existe, mas está longe de representar uma ruptura. O que os números mostram é que a televisão continua sendo um dos raros meios capazes de atravessar faixas etárias distintas e produzir referências comuns para públicos que, em outros ambientes, vivem experiências cada vez mais segmentadas.

Talvez seja justamente esse o principal diferencial cultural da TV na era digital. Enquanto os algoritmos distribuem conteúdos personalizados para cada indivíduo, a televisão ainda oferece algo que poucos meios conseguem replicar: experiências coletivas. Ela cria momentos em que milhões de pessoas assistem às mesmas histórias, aos mesmos acontecimentos e aos mesmos debates ao mesmo tempo. Em uma sociedade marcada pela fragmentação da atenção, essa capacidade de sincronizar experiências se tornou um ativo cultural valioso. A relevância da TV não está apenas no que as pessoas assistem, mas em como ela se integra à vida cotidiana. Segundo a Pesquisa Nova Consumo (2021), realizada pelo Coletivo Tsuru50% dos consumidores afirmam que ligar a televisão é a primeira coisa que fazem ao chegar em casa, 48% a consideram sua principal companhia no ambiente doméstico e 46% costumam deixá-la ligada enquanto realizam outras atividades. A televisão não ocupa apenas o centro da sala; ela ajuda a organizar o ambiente doméstico, acompanha rotinas e participa da construção da atmosfera cotidiana dos lares.

Com tantas opções de conteúdo disponíveis em plataformas de streaming, escolher o que assistir pode se tornar um desafio. A televisão opera de forma diferente. Ela oferece uma curadoria pronta, reduz o esforço de decisão e permite que o espectador simplesmente participe de um fluxo cultural compartilhado. Em um cenário de sobrecarga informacional, essa simplicidade se tornou um diferencial. conteúdo linear simplifica o processo de escolha para o espectador, eliminando a dificuldade de decidir. Outro aspecto frequentemente negligenciado é o papel da TV como ferramenta de democratização cultural. Assinar os principais serviços de streaming disponíveis no Brasil exige um investimento significativo para uma parcela expressiva da população. A TV aberta, por outro lado, permanece gratuita. Isso ajuda a explicar por que ela continua alcançando nove em cada dez pessoas das classes AB e C e oito em cada dez pessoas das classes DE na Grande Porto Alegre, de acordo com dados da Kantar***. Quando um meio combina gratuidade com esse nível de penetração, ele deixa de ser apenas um veículo de comunicação e passa a funcionar como uma das principais portas de acesso à cultura e à informação.

Seu impacto também ultrapassa a tela. A televisão continua sendo um dos principais motores das conversas que circulam nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nos ambientes de trabalho e nos encontros familiares. Novelas, programas jornalísticos, transmissões esportivas e entretenimento geram debates, moldam vocabulários, impulsionam comportamentos e ajudam a construir referências compartilhadas.Mais do que concorrentes, TV, streaming e redes sociais desempenham papéis complementares no ecossistema de mídia, atendendo a diferentes momentos e necessidades de consumo. Para marcas e negócios, essa capacidade de gerar repercussão cultural, aliando alcance, credibilidade e relevância, reforça por que a TV continua sendo uma das plataformas mais estratégicas do ecossistema de mídia.

Os dados de 2025 sugerem que talvez estejamos olhando para a televisão a partir de categorias ultrapassadas. O debate costuma tratá-la como uma mídia do passado, enquanto a experiência concreta das pessoas aponta para algo diferente. A TV não desapareceu com a internet; ela foi incorporada a uma ecologia midiática mais ampla. O consumidor gaúcho assiste televisão, usa o celular simultaneamente, comenta nas redes sociais e circula entre plataformas ao longo do dia. A questão, portanto, não é se a televisão sobreviveu à era digital. Os números mostram que sim. A pergunta mais interessante é outra: por que continuamos subestimando um dos últimos espaços capazes de reunir diferentes gerações, classes sociais e territórios em torno de experiências culturais compartilhadas?

Por: Pâmela Costa
Antropóloga e Analista de Insights de Mercado

Fontes:
*Kantar Ibope Media; Instar Analytics, total indivíduos; TV Linear; ATS, 2024, RM Poa
**Kantar IBOPE Media, Instar Analytics, cobertura por geração na Gde. Porto Alegre, jan-nov/25.
***Kantar IBOPE Media, Instar Analytics, cobertura por renda na Gde. Porto Alegre, jan-nov/2025.9 a cada 10 pessoas da Classe C8 a cada 10 pessoas da Classe DE
Pesquisa Nova Consumo – Coletivo Tsuru para Pesquisa & Conhecimento – CMI (Globo). 2021. 

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